sexta-feira, abril 02, 2010

UMA ENTREVISTA COM JUDAS ISCARIOTES


UMA ENTREVISTA COM JUDAS ISCARIOTES

Através da mediunidade de Chico Xavier*, o Espírito Humberto de Campos, o mais aplaudido cronista da vida além-túmulo, revela a verdadeira condição espiritual de Judas e desfaz a mitologia negativa das religiões dogmáticas que perseguem até hoje a memória do discípulo que traiu Jesus.
Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além, descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa agonia; acolá está o Gólgota sagrado, e em cada coisa silenciosa há um traço de Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Cedron silencioso, como se suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das vistas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.
Foi assim, numa dessas noites, que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.
Os Espíritos podem vibrar em contato direto com a História. Buscando uma relação mais íntima com a cidade dos profetas, eu procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e, no meio das fatalidades que pesam sobre o império morto dos judeus, não ouvem os gemidos da Humanidade invisível.
Nas margens caladas do Cedron, não longe talvez do lugar sagrado onde o Salvador esteve com os discípulos, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se cativante simpatia.
- Sabe quem é este? Murmurou alguém nos meus ouvidos. Este é Judas...
- Judas?
- Sim, os Espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se repentinamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...
Aquela figura de homem magnetizava-me. Não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Jesus havia um abismo. Meu atrevimento, porém, e a santa humildade do seu coração ligaram-se, para que eu o entrevistasse, procurando ouvi-lo.
Humberto - O senhor é de fato o ex-filho de Iscariotes?
Judas – Sim, sou Judas (respondeu enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica). Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...
Humberto – É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento a respeito da sua personalidade, na tragédia da condenação de Jesus?
Judas – Em parte... Os escribas que redigiram os Evangelhos não atenderam às circunstâncias e à tricas políticas que, acima dos meus atos, predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sinhedrin desejava o reino do Céu pelejando por Jeová a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre; porém, o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via na política, a única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória com o desprendimento das riquezas. Com as suas teorias, nunca poderia conquistar as rédeas do poder, já que, em seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei, então, uma revolta surda, como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um Chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica, como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que, aliás, apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
Humberto – E chegou a salvar-se pelo arrependimento?
Judas – Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimentos expiatórios da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os verdadeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência.
Humberto – E está hoje meditando nos dias que se foram...(pensei com tristeza).
Judas – Sim... estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas, que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal dos seus passos divinos. Vejo-o ainda na cruz, entregando a Deus o seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que o abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que o ampararam no doloroso transe. Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor. Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência, no tribunal dos suplícios redentores.
Quanto ao Divino Mestre (continuou Judas com seus prantos), infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque, se recebi trinta moedas vendendo-o aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido ao mundo, a grosso e a retalho, por todos os preços, em todos os padrões de ouro amoedado...
Humberto – É verdade!, concluí, e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.

Judas afastou-se, tomando a direção do Santo Sepulcro, e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no Céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Cedron rolava na sua quietude como um lençol de águas mornas, procurando um mar morto. (19 Abr 1935).

“Crônicas de Além-Túmulo”, psicografado por Chico Xavier – FEB Editora

Quem é quem e onde

Caifás: sumo sacerdote judeu, que fez condenar Jesus e perseguiu os apóstolos.
Cedron: torrente da Judéia que separa Jerusalém do Monte das Oliveira e deságua no Mar Morto.
Constantino I: imperador romano (306 a 337 dC) que transferiu a capital para Bizâncio, transformando-a em Constantinopla (atual Istambul-Turquia). Sua vitória contra Maxêncio, junto aos muros de Roma, decidiu definitivamente o estabelecimento do Cristianismo como religião oficial do império.
Fogueira Inquisitorial: um dos métodos de execução utilizado pelo Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição. Os defensores desse tipo de punição advogavam teologicamente que a queima do corpo físico significava a purificação e salvação da alma humana contaminada pela heresia. Entre as vítimas célebres da Inquisição católica consta a heroína francesa Joana D’Arc, acusada de bruxaria e mais tarde canonizada pela própria Igreja.
Getsêmani: aldeia perto de Jerusalém, onde estava o Jardim das Oliveiras e aonde Jesus passou uma noite de agonia.
Gólgota: ou Calvário, montanha perto de Jerusalém, onde Jesus foi crucificado.
Judéia: parte da Palestina entre o Mar Morto e o Mar Mediterrâneo; é o antigo Reino de Judá e atual região de conflito entre árabes e judeus.
Jerusalém: antiga capital da Judéia e hoje capital do Estado de Israel, nas margens do Rio Jordão. Cidade dos lugares sagrados como o Muro das Lamentações e o Santo Sepulcro. Na simbologia mística cristã é estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra.
Jeremias: um dos quatro grandes profetas de Israel (680-580 aC). Célebre autor das Profecias e das Lamentações sobre a ruína de Jerusalém.
Pôncio Pilatos: governador romano da Judéia que, talvez receando uma revolta popular, entregou Jesus Cristo aos juízes religiosos hebreus, apesar de saber que o mesmo não cometera nenhum crime.
Tetrarca da Galiléia: cargo de Herodes Antipa, um dos três filhos e herdeiros do reino da Judéia –de Herodes, o Grande-. Como governador (tetrarca) de uma terça parte da Judéia (a Galiléia) Herodes, a pedido de Pilatos, julgou Jesus e o condenou a morte. Antes já havia condenado João Batista.
Sinhedrin: juiz supremo do tribunal religiosos judaico (Sinhedrio).
Tito: imperador romano, filho de Vespasiano. Durante o reinado de seu pai, tomou e destruiu Jerusalém (70 dC), provocando a primeira diáspora (dispersão) dos judeus pelo mundo.

5 comentários:

  1. Judas reencarnou como Joana D'Arc.

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  2. Assim disse Hermínio de Miranda. Se você notar, ele se refere a fogueira na Entrevista.

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  3. como estão espiritualmente os demais???

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  4. O texto original diz:
    "Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo."
    Ele não se refere à perfeição de Jesus.

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