domingo, maio 09, 2010

Artigo: A Cilada das Almas Gêmeas

A Cilada das Almas Gêmeas

 Joana Abranches

A Doutrina Espírita é clara no que diz respeito às almas gêmeas. Não existem metades que precisam se completar para desfrutar a eterna felicidade. Cada um de nós é uma individualidade que estabelece laços e afinidades com outras individualidades, através dos tempos e das vivencias sucessivas. Se substituirmos o termo “gêmeo” por “afim”, vamos perceber que são muitas as almas afins que encontramos e reencontramos por esse mundão de meu Deus, e que todas elas, cada uma seu modo, têm seu espaço e importância em nossa caminhada. Podemos dizer então que são várias as nossas “almas gêmeas”. Amigos, filhos, irmãos, pais, mães, maridos e esposas, entre outros, formam a imensa fileira das relações de afinidade construídas vidas afora.

Porém, apesar da clareza dos ensinamentos espíritas, ainda vemos muita gente boa, dentro do nosso movimento, cair nessa armadilha emocional, que está mais pra conto do vigário que pra conto de fadas, e pode gerar graves conseqüências, não só na vida pessoal, como também no núcleo espírita em que trabalham.

Temos presenciado histórias preocupantes. Aqui, são aqueles dois médiuns, ambos casados com outros parceiros, que se descobrem “almas gêmeas”; E aí, tentam se enganar que estão “renunciando”... Mantém-se em seus casamentos, mas tornam-se “irmãos siameses” na Casa Espírita. Sentam-se lado a lado nas reuniões, são vistos juntos em todos os lugares, dão sempre um jeitinho de fazer parte da mesma equipe (isso quando não arranjam uma missão que “a espiritualidade designou somente aos dois”) e se isolam pelos cantos em conversas particulares sem fim. Só tem olhos um para o outro e, em tal enlevo, não se dão conta que à sua volta todos sentem o que está acontecendo, sobretudo seus maridos e esposas, humilhados publicamente no melhor estilo adultério por pensamento e intenção, embora sob a máscara do amor fraternal. Sim, porque o fato de não partirem para o ato sexual não os exime do abandono afetivo e da traição emocional em relação aos cônjuges.

Acolá, é aquela irmã solitária e carente, que se depara com o eloqüente e carismático orador. Que palestra!... Que palestrante!... Que homem! Ele só tem um defeito: É casado!... E logo com aquela senhorinha já envelhecida e meio sem graça... Que desperdício!... E eis que de repente ele também a vê na platéia... Bonitona, elegante, jovial e olhando-o com aquele olhar de admiração apaixonada que há muito ele não percebe na companheira... Afinal, o casamento - como todos após lá seus trinta anos - já entrou na rotina. Oh céus! Ali mesmo cupido dispara a flexa e zás!... Começam as justificativas íntimas: “Como não tinham se descoberto antes?!... Por certo eram almas gêmeas que há muito se procuravam... O casamento foi um equívoco; o reencontro uma programação para que pudessem trabalhar juntos para Jesus.” Resolvem então assumir o romance. A mulher dele, abandonada após anos de companheirismo e convivência, entra em profunda depressão, os filhos se revoltam, a família se desestrutura, os companheiros se retraem, decepcionados e temerosos... “Ora, quem tem suas mulheres e maridos que se cuide, pois se aconteceu com o fulano, que era um exemplo, ninguém está livre”...

            Instala-se então o tititi e a desconfiança. Daí para o escândalo é apenas um passo, e para o afastamento constrangido dos próprios envolvidos, sua família e outros tantos trabalhadores desencantados com a situação, é um pulo. Sofrimento, deserção e descredibilidade. Tudo pelo direito ao “felizes para sempre”junto à sua “metade da laranja”... Mas, onde é que está escrito, no Evangelho, que é possível construir felicidade sobre os escombros da felicidade alheia ou edificar relacionamentos duradouros em alicerces de leviandade e egoísmo?

Temos visto estrondosos equívocos desse tipo mexer seriamente com estruturas de famílias e Casas Espíritas, fazendo ruir Instituições e relações que pareciam extremamente sólidas. Temos visto companheiros valorosos das nossas fileiras, que caminhando distraídos de que “muito se pedirá àquele que muito tiver recebido”, de repente resolvem jogar pro alto o patrimônio espiritual de uma vida inteira, em nome do “amor”. E assim, cônjuges dedicados e dignos são descartados como se não tivessem alma nem sentimentos, em detrimento de aventuras justificadas por argumentos inconsistentes, sem nenhum respaldo ético/moral ou espiritual. Isto quando ainda há um mínimo de honestidade e se pede a separação, porque alguns preferem continuar comodamente em seus relacionamentos “provacionais”, porém mantendo, na clandestinidade, um “afair” paralelo com a tal “metade eterna”, sob a desculpa esfarrapada de que a família deve ser poupada, pois “família é sagrado!!!”

Logo se faz sentir o efeito dominó. Lá adiante, após vários corações feridos e muitas quedas morais, a convivência faz a alma gêmea virar “alma algemada”. As desilusões chegam, inevitáveis, com todo o peso resultante das atitudes ditadas pelas paixões, mas na maioria das vezes, já é tarde pra retomar, ainda nesta existência, o percurso abandonado.

Reflitamos. Ninguém chega atrasado na vida de ninguém. Se chegou depois é porque não era pra ser. E se não era pra ser há um bom motivo para isso, visto que as Leis Divinas são indiscutivelmente sábias, justas e providenciais. Não tem pra onde fugir: Quando o teste nos procura, ou somos aprovados ou forçosamente teremos que repetir a lição futuramente, e em condições bem mais adversas...

Podemos reencontrar, no grupo de trabalho espírita, grandes amores e paixões do passado que nos reacendem sentimentos e sensações maravilhosas? Sim. Podemos olhar para companheiros de ideal espírita com outros olhos que não sejam os do amor fraternal? Sim. Nada mais natural. Mas sabemos, pelo Apóstolo Paulo, que poder nem sempre significa dever... Portanto, o bom-senso nos diz que investir ou não afetivamente nessas pessoas, vai depender de que ambos estejam livres para fazê-lo.

Alguém haverá de argumentar que casamento não é prisão e que aliança não é corrente; que ninguém está preso a ninguém “até que a morte os separe” e que o próprio Cristo admitiu a dissolução do casamento. Porém, o espírita não desconhece que, na maioria dos casos, muito além dos compromissos cartoriais existem profundos compromissos e dívidas emocionais entre aqueles que se escolheram como marido e mulher nesta vida. Compromissos muito sérios para serem dissolvidos porque o corpo requer sensações novas, porque a mulher envelheceu, perdeu o brilho ou porque o marido ficou rabugento... Como se o outro estivesse só quebrando um galho enquanto a “outra metade” não chegava...

Todos almejamos felicidade, e no estágio evolutivo em que nos encontramos, isso ainda tem muito a ver com realização afetiva. Por isso mesmo, não devemos ignorar que só a quitação de antigos débitos emocionais é que nos facultarão essa conquista. Precisamos interiorizar, de uma vez por todas, que os casamentos por afinidade ainda são raros neste momento planetário, e que se ainda não conseguimos amar o parceiro que nos coloca em cheque ou aquele que não corresponde aos nossos anseios, o conhecimento das leis morais exige que ao menos nos conduzamos com um mínimo de retidão e tolerância diante deles. Tal consciência nos exige também, caso nos sintamos atraídos por companheiros já comprometidos, que nos recusemos terminantemente, sob qualquer pretexto, a desempenhar o deprimente e desrespeitoso papel da terceira pessoa numa relação, pois não há conversa fiada de alma gêmea que dê jeito no rombo emocional aberto pela desonestidade afetiva, nem justificativa de carência e solidão que nos permita desviar da rota do dever sem que tenhamos, forçosamente, que colher amargos frutos, porque “se o plantio é livre, a colheita é obrigatória”.

Não se colhe rosas plantando espinhos. Sejamos responsáveis diante daqueles que escolhemos e que nos escolheram para compartilhar a vida. Acautelemo-nos contra as ilusões. Se os nossos anseios são irrealizáveis por agora, respeitemos as limitações impostas pelo momento que passa; Por mais possa doer olhar de longe um dos muitos seres amados, que cruza o nosso caminho nesta vida, mas que já optou por outra pessoa, só a dignidade de nos manter à distância é que vai possibilitar, pelas justas leis da vida, que conquistemos por mérito, lá na frente, em outras circunstancias, a alegria do reencontro e a partilha do afeto junto àquele que nos é tão caro, porque estaremos redimidos dos ônus afetivos do ontem através das atitudes renovadas do hoje.

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado” (Mateus 6.33)

Saibamos buscar... Saibamos esperar... Trabalhemos por merecer... Afinal, temos pela frente a eternidade!


* Joana Abranches - Assistente Social e Presidente da Sociedade Espírita Amor Fraterno – Vitória/ES
 joanaabranches@gmail.comamorefraterno@gmail.com

11 comentários:

  1. Li e gostei muito. Esclarecedor. ray

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  2. Li e achei mto interessante!mas,gostaria de saber mais sobre este assunto,afinal somos movidos pelo amor.Além do que,eu ainda acho que numa relação em que ocorre um casamento,pensa-se que esta seria a pessoa certa,a sua alma gêmea.Mas,c/ o passar do tempo,c/ a convivência,abserva-se que esta pessoa não é aquela tão esperada.E, o vazio no peito reinicia.Eis que derepente ela encontra outra pessoa que se diz amá-la e,ao passar os anos eles ficam ainda mais unidos.Em outros casos, ocorre mtos outros relacionamentos, mas nenhum deles prenchem o lado emocional dessa pessoa..e aí, o que vc me diz disso??e assim por diante... Se citar aqui vai longe!! Eu ,como apenas uma espiritualista caminhando e tentando chegar a um desenvolvimento melhor ,acho que temos mesmo amores de outras vidas a serem resgatados.Lógico que mtas dessas almas gêmeas estão em nossos filhos,mães,pais,tios,avós amigos etc...
    Mas ,ainda creio que há mtos amores perdidos!e que qdo se reencontram acabam numa relação.Se por acaso,ficarem até a morte é pq tiveram a chance de resgatar o que lhes faltou numa outra vida.Todavia,se por acaso dissolverem essa relação e não se cumpriu o resgate,obviamente que terão de se reencontrar noutra próxima reencarnação p/ se fazer cumprir esse resgate.Mtos ,creio que, lá no plano astral sabem que não daria certo se viessem p/ ter uma relação marido/mulher e ,então escolhem vir como filhos ,nora/genro,amigos etc...P/ tudo há uma explicação!por isso temos que ser coerentes nos julgamentos.(mateus,6.33).Como seria ótimo que todo casamento fosse:"felizes p/ todo sempre".Quem não gostaria de viver:"até que a morte os separe".Mas,nem sempre é isso que acontece e, viver juntos por causa dos filhos é meio complicado ,não?tanto p/ o casal como p/ os filhos que estão atentos aos acontecimentos que os rodeia(convivencias difíceis).E,p/ uma pessoa que vive no meio de um triangulo amoroso ,então:que horror!Na verdade não existe amor de "um" nem tão pouco amor de "três" pq alguém nesses casos está perdendo!Amor verdadeiro não trai pq ele é pleno.Aquele que não está satisfeito consigo mesmo nem feliz ,não consegue fazer o outro feliz.Arc

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  3. Volto a entrar neste blogge após terminar minhas tarefas e houver mais tempo para poder desenvolver um bom comentário, até já:

    Jose Alberto

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  4. é!!!a chamada alma gemea acho q é mesmo uma cilada principalmente quando uma pessoa casada acha que o outro é sua alma GÊMEA...AÍ perde-se o amor pelo seu marido,que tanto fez por ela...ela busca no outro a solução para seus problemas...mas nimguém é perfeito,e depois que a casinha feliz cai por terra e a pessoa vê que casamento é difícil e não é um mar de rosas vem as provações e devemos ser muito maduros e pensar muito para não magoar o outro e fazer a coisa certa

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  5. Li, mas achei estranho, essa estória deveria ser direcionada aos orientadores da casa e conversar com essas pessoas.
    É Chato acabar num blog o que esta acontecendo com as pessoas. Ai como é de todo o ser humano, acaba virando fofóca e os envolvidos geralmente são os ultimos a saber.
    Acredito que antes de colocar uma coisa de um nível tão grave e humilhante os orientadores da cada e o comentário deve ser passado para a aprovação.
    Quem somos nós para julgar.

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  6. O texto é bom sim, e muito do que està aì é verdade, mas tem muitas lacunas a serem preenchidas. Se decisoes fossem faceis e sempre certas, nao existiria problemas. Sendo assim nao julguemos, cada caso é um caso. A unica coisa certa é sempre pensar no outro para que possamos ter mais amor ao proximo do que a nòs mesmos, apesar de nem sempre ser facil. Mas o texto é realmente muito bom. parabens...

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  7. Não concordo com o texto. Acredito que casamento não significa prisão como foi escrito e que provações não precisam ser pela vida toda, se algo aconteceu, sim, sem dúvida, era para acontecer. Se encontramos um amor forte de outras vidas, é por que este também era para acontecer. Senão, não aconteceria, falar que estamos amarrados a uma só pessoa, quando o próprio Jesus aprovou a dissolução do casamento, é ir contra a sua Palavra. Não seria egoísmo do marido ou da mulher, não querer que sua pessoa amada seja verdadeiramente feliz? Enfim, este texto serve mais para aqueles que tiveram seus egos feridos por sua esposa ou marido amar outra pessoa.

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    1. concordo Exatamente..ninguém é obrigado a ficar com ninguem....casamento não é algema!
      imagina aquela pessoa que é humilhada traida mulheres que apanham sao praticamente escravas do lar..
      somos livres
      Deus nos fez para sermos felizes!

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  8. conheço um casal amiga minha que esta passando por este problema achei o tema legal alma algemada no começo era tudo 10 ela era a 3 pessoa ele mantem o casamento por que a familia em primeiro lugar mas nao a larga nao a deixa viver sua vida é complicado gostaria de saber mais sobre este tema e se tem como libertar este compromisso quais os procedimentos isto ja acontece a 5 anos

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  9. Acho que esse texto não responde pela casa espírita, me parece muito pessoal. Não me parece esclarecedor, só esses casais sabem o sentimento que tem, se fossem duas mulheres diriam que por passar muito tempo juntos são homossexuais,então. Passar muito tempo junto não quer dizer muita coisa. Se quem está com você se interessou por outro, pare de lamentar e abra a porta. As pessoas têm que estar com a gente porque querem de verdade. Se gostar de você a pessoa volta mas ela é. Livre.

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  10. Muito esclarecedor. Obrigada por compartilhar. Passei por uma situação parecida e vi o quanto eu estava sendo egoísta e leviana.

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